Uma prisão sem muros
Estudos recentes têm apontado a violência urbana como responsável por desencadear uma série de alterações mentais na população. Segundo o psiquiatra Marcelo Brandt Fialho (foto abaixo), um indivíduo que se vê frente a uma situação de violência pode, por uma dificuldade temporária ou crônica de lidar com essa situação, desenvolver uma fuga da realidade e ficar psicótica. Pode ainda desenvolver transtornos depressivos e transtornos da ansiedade.

A executiva formada em Administração de Empresas, Marisa Bezerra, 36, (nome fictício), moradora da Aldeota, após passar por um seqüestro relâmpago, no qual ficou seis horas no porta-malas do carro dos seqüestradores, desenvolveu diversas fobias que lhe trouxeram prejuízos pessoais, emocionais e profissionais. Ela desenvolveu medo de lugares com grande concentração de pessoas, medo de dirigir, de sair de casa, medo de morrer ou de estar ficando louca. Após passar por diversos exames recebeu o diagnóstico: Transtorno do Stress Pós-Traumático, seguido de Síndrome do Pânico.
Síndrome do Pânico ou Transtorno do Pânico é uma doença grave caracterizada por ataques do pânico, oriundos de uma súbita crise de ansiedade aguda (transtorno da Ansiedade), com repercussões tanto emocionais quanto físicas, onde a pessoa tem uma série de manifestações de medo e insegurança, acompanhados de diversos problemas físicos. Os sintomas mais comuns incluem taquicardia, sudorese, sensação de falta de ar, dor ou desconforto no peito, sensação de vertigem ou de desmaio, tremor, fraqueza nas pernas, medo de morrer ou de enlouquecer, distorção da realidade e confusão mental. Um ataque do pânico tem duração de 5 a 20 minutos e os portadores geralmente têm duas crises por semana.
A Síndrome do Pânico atinge indivíduos na sua maioria com faixa etária de 21 a 40 anos, na plenitude de suas vidas profissionais. As pessoas mais predispostas são aquelas que têm dificuldade de relaxar, ansiosas, perfeccionistas, que vivem sob estresse constante, ou que sofreram a perda de familiares ou de alguns suportes sociais.
Segundo o Dr. Marcelo, uma das características principais desenvolvidas por uma pessoa com Síndrome do Pânico é o medo ter um novo ataque, uma nova crise (o medo de ter medo). Em virtude desse medo a pessoa acaba evitando situações nas quais ela relacionou como sendo a causa do ataque de pânico. Por isso, deixam de ir a determinados lugares, param de realizar determinadas funções como trabalhar ou dirigir, por exemplo, e, na fase aguda da doença, não conseguem nem sair de casa. – “Foi o que aconteceu com a Sra. Marisa Bezerra”, explica.
A falta de qualificação específica nos profissionais das emergências para reconhecerem os sintomas da Síndrome do Pânico tem sido um problema para os pacientes que procuram socorro médico. O indivíduo faz diversos exames, passa por diversos especialistas, principalmente cardiologistas, em virtude da semelhança dos sintomas com problemas de coração, e então recebe a notícia de que não tem nada, de que é apenas stress ou “coisas criadas por sua própria cabeça”. Se por um lado, os resultados dos exames físicos trazem alívio ao paciente por não ser algo mais grave. Por outro lado, o deixa mais preocupado, porque os sintomas continuam lá e não existe uma explicação plausível. Logo, acham que estão mesmo ficando loucos.
O Técnico Têxtil Márcio Feitosa, 57, (nome fictício), morador da Cidade dos Funcionários, conta que até descobrirem que ele estava com Síndrome do Pânico, passou por uma bateria de exames, foi avaliado por cardiologistas, clínicos geral, quando enfim, o encaminharam a um psiquiatra que diagnosticou a Síndrome do Pânico. Isso levou cerca de dois meses. Na fase aguda da doença ele largou o emprego, parou de dirigir, só saía de casa acompanhado e tinha um medo excessivo de morrer.
No Ceará não existe nenhum estudo específico, nenhuma estatística ou dados que aponte o número de incidência da doença. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, somente Brasília (18% da população), São Paulo (11% da população) e Porto Alegre (9% da população) possuem esse levantamento. Isso comprova a carência de informação sobre a Síndrome do Pânico em nível estadual e nacional.
Outro problema que o paciente com Síndrome do Pânico enfrenta é o preconceito. O indivíduo demora a procurar atendimento especializado, por medo ou por preconceito de que vai ser rotulado como tendo um transtorno mental ou que está ficando louco. Esse preconceito se estende também à sua família que muitas vezes rotulam os sintomas como “frescura”, covardia, ou fraqueza de personalidade, já que não foi encontrado nada que comprove a origem dos sintomas. É comum familiares, e ou, amigos dizerem ao paciente que ele pode controlar a doença com sua própria força de vontade. Mas, na verdade, existem inúmeras ações que precisam ser feitas, para que essa pessoa consiga manejar esse transtorno da ansiedade, de uma maneira adequada. Claro que, a boa vontade e o esforço pessoal, é muito importante. Contudo, depende também de um acompanhamento especializado e de tratamento farmacológico.
Não existe ainda cura para a Síndrome do Pânico. O que existe é um controle. O tratamento varia de indivíduo para indivíduo e geralmente é uma combinação de antidepressivos, ansiolíticos e terapias.
Em Fortaleza, os CAPS (Centro de Apoio Psicológico) trabalham com terapias de grupo que poderão trazer bons resultados. Recomenda-se também o Grupo Fortpan (fortpan@yahoo.com.br); um encontro virtual de fortalezenses que têm Transtorno do Pânico e outros distúrbios da ansiedade.
Maiores informações sobre a doença: http://gold.br.inter.net/mineiro/.
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